O Benfica e a juventude

Benfica v Setubal: Primeira Liga

Há mais ou menos um ano atrás, o Benfica foi a Arouca vencer por 2-1 num jogo da quarta jornada do campeonato nacional. Nessa partida, um jovem reforço comandou as operações no meio-campo, assegurando a ligação entre a defesa e o ataque. Com o número 8 nas costas, André Horta jogou e fez jogar. Para se ter uma ideia, nessa noite, Pizzi jogou na esquerda e Rafa fez dupla no ataque com Gonçalo Guedes.

Mais ou menos um ano depois, André Horta está no plantel do Braga, por empréstimo do Benfica. Depois de um arranque em alta, com a conquista da Supertaça e um golo pelo meio, Horta lesionou-se, perdeu o lugar, apareceu no Dragão para devolver equilíbrio à equipa, desapareceu outra vez, e acabou titular no Bessa no jogo que nada contava para o tetra.

No lugar dele, dirão, apareceu um enorme Pizzi. E depois chegou Filipe Augusto, um jogador certinho que cumpre, mas não entusiasma. Deixou de haver espaço para o André. Certo, mas não é o Benfica o clube onde se aposta nos jovens?

O eclipse de André Horta não faz sentido com a anunciada política de aposta na juventude do Seixal. O fim da era JJ trazia consigo também o final de um certo despesismo que se havia tornado tradicional na Luz. Não havia mais, dizia LFV, dinheiro para ir buscar craques ao Real Madrid, como Saviola ou Garay, ou nomes sonantes na Argentina, como Gaitán ou Salvio (ou DiMaria antes destes). Não, a partir de agora o Benfica iria encontrar os seus reforços na fábrica do Seixal.

No entanto, o clube gastou como nunca havia gasto antes. Milhões foram pagos por jogadores como Raúl Jiménez (ainda hoje, não quero acreditar que um jogador, ainda que talentoso, com 1 golo em 21 jogos na Liga Espanhola tenha custado 18 milhões), Mitroglou, Carrilo, Cervi, Rafa, Zivkovic (sim, prémios de assinatura contam), e o que faltava pagar pelo Pizzi.

Os jogadores da cantera que foram aparecendo na equipa principal foram jogando e agarrando oportunidades mais por necessidade do que por desígnio técnico. Ederson aparece quando Júlio César se lesiona antes do jogo do título em 2016; Lindelof só joga na liga quando não há mesmo mais ninguém para fazer parelha com Jardel; Renato Sanches aparece quando Rui Vitória procura uma solução para uma equipa sem dinâmica na transição ofensiva; Gonçalo Guedes perde o lugar para Pizzi na direita no primeiro ano de Vitória e aparece a jogar no meio na época seguinte porque Jonas e Jiménez estavam lesionados. O único produto do Seixal que aparece na equipa principal por opção técnica é Nélson Semedo, atirado às feras no jogo dos mind games de Jesus.

Poderão dizer que um jogador tem de saber agarrar as oportunidades e que Rui Vitória tem o mérito de ter mantido a aposta nos miúdos. Mas, o treinador nunca criou espaço para que um jovem da formação aparecesse na equipa – e não foi precisamente para isso que ele foi contratado? E isso diz-me que embora a política pública seja a de apostar nos jovens, a política privada é jogar com quem nos dá mais garantias de ganhar títulos.

Desde o Ajax de Van Gaal que uma equipa maioritariamente composta por jogadores da formação do clube não domina o futebol Europeu. Ferguson e Guardiola comandaram equipas com craques locais em Manchester e Barcelona, mas também tinham dinheiro para contratar vedetas para compor o plantel (Andy Cole e Samuel Eto’o não apareceram do nada). O futebol é um jogo de homens e é difícil ganhar com rapazes.

Não tenho problemas com a aposta do Benfica em continuar a ganhar já. Raios, por mim o Benfica ganhava todos os jogos por 10 a 0 e o Luisão marcava um hat-trick todas as semanas. Mas não gosto de me sentir enganado. Não gosto que me vendam a ilusão de uma equipa composta por jovens da formação, quando a aposta principal é em consagrados e jovens estrangeiros para conseguir maiores retornos financeiros. Não gosto que me digam que o meu treinador é uma espécie de Ferguson, quando ele tem mais de Moyes.

Olhemos para os primeiros onzes desta temporada. Onde estão os jogadores da formação? O Varela, porque não há outro, e o Almeida, porque o Pereira não convenceu na pré-temporada – e ambos devem ter o tempo contado na primeira equipa.

E regressamos a André Horta. Um jovem jogador que agarrou o lugar, mostrou que tinha condições para jogar no Benfica, mas que perdeu espaço numa época longa e durante uma difícil luta pelo título. Mesmo numa lógica de ganhar já, o André Horta não tem lugar neste plantel? O João Carvalho não merece uma oportunidade? Ou o Rúben Dias?

O Benfica continua a investir muito no Seixal e acaba de contratar Pedro Mil-Homens para liderar o Campus. Mas, fica sempre a ideia de que o Benfica está a criar jogadores para potenciar outras equipas e brilhar noutros campeonatos. O Glorioso tornou-se numa espécie de subempreiteiro dos grandes clubes europeus.

Os últimos grandes encaixes financeiros do Benfica vieram de jogadores da formação. De há muito tempo a esta parte que sabemos que o Benfica forma para vender. Mas, caramba, seria bonito se as pérolas jogassem algum tempo no Benfica (looking at you, Bernardo) e fosse a Liga Portuguesa a beneficiar com o seu crescimento.

De Braga, André ficará a ver a Luz por um canudo. Resta saber se quando o Pizzi quebrar (e com a quantidade de minutos que acumula ele acaba sempre por quebrar) o Rui Vitória não vai lamentar não ter o Horta pronto para entrar em campo.

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